terça-feira, 21 de julho de 2009

Anima Mundi 2009 – Curtas Experimentais

Em sua 16º edição o Festival Anima Mundi surpreendeu pelo experimentalismo dos curtas em tempos de massificação do digital. Nesses meus 9 anos de Festival destaco nessa edição de 2009 três momentos que dividirei em postagens separadas: curtas experimentais, Michel Ocelot e o longa-metragem “Sita sings the blues”.
Nesses anos que acompanho e participo do Anima Mundi no Rio de Janeiro (em 2004 tive 2 filmes no festival: “Tequila” no Anima Web e “Navio Negreiro” no Animação em Curso) comecei a perceber que o digital avançava com tal força que parecia que as pessoas deixaram de refletir sobre as animações que realizavam e criavam efeitos especiais chamando-os de filmes.
Foi uma grata surpresa perceber que na edição 2009 a maioria dos filmes, mesmo que feitos em computação gráfica, apresentavam uma visão de mundo diferente e procuravam utilizar o digital de uma forma mais experimental e até ousada. Mesmo que o fechamento da história, um roteiro bem amarrado, em alguns casos ainda deixem a desejar.
Em praticamente 2 dias consegui ver 48 curtas e 1 longa. Vários filmes destacaram-se e me surpreenderam durante o Festival, mas por diferentes motivos. Destaco aqui aqueles cujo experimentalismo me chamaram mais a atenção:

MUTO, de Blu (Itália)
Ganhador do prêmio de melhor animação, júri profissional Anima Mundi (RJ).
Muto é uma animação realizada nos muros das cidades de Buenos Aires e de Baden. Através de grafites registrados quadro-a-quadro, as estranhas formas realizadas pelo artista Blu ganham vida. O tempo muda, o sol muda e com ele a luz, pessoas passam como se nada estivesse acontecendo. Somente quando as imagens produzidas são editadas é que a animação pode acontecer, como se estivesse em um mundo paralelo à nossa realidade. Na cegueira do cotidiano Blu estaria apenas realizando mais um grafite, mas através do “olho mágico” da câmera sua arte se faz. O tremor da câmera, a mudança da luz e outros inconvenientes perdem sua força para a animação. Essa relação entre a concretude do muro, estrutura estanque, e o inusitado movimento dos desenhos resgatam uma magia quase perdida no universo da animação. A magia de “dar vida” ao inanimado, como se fosse possível ver a alma das coisas. Por mais bizarros que os desenhos sejam, o encanto da forma e da técnica superam qualquer expectativa. Blu chega a utilizar o chão além da parede, rompendo até mesmo com os limites convencionais que do grafite. É bom lembrar que animações assim dão muito trabalho para serem realizadas, mas seu resultado continua insuperável.
Para complementar Muto é lançado na íntegra em licença creative commons, ou seja, todos podem baixá-lo, exibi-lo e copiá-lo desde que seja para finalidades não comerciais. Confira abaixo essa impressionante animação e visite o site de Blu para conhecer mais sobre seu trabalho.

http://www.blublu.org/sito/video/muto.htm

NO CORRAS TANTO, de César Díaz Meléndez (Espanha)
A beleza da técnica de animação em areia consagrada pelo animador húngaro Férenc Cakó ganha novo fôlego no impressionante trabalho de César Díaz Meléndez. Com uma música caliente as formas vão se dissolvendo e recriando-se na areia. A interação com a música impressiona pelo timing preciso e os desenhos elaborados que se movem e se fundem ao ritmo da alegre música.
A utilização do espaço na animação é algo que sempre me impressionou, especialmente em processos mais artesanais e esse é um ponto marcante na animação “No corras tanto”. Transbordar os limites, recriar o espaço e com ele abrir as portas para um mundo próprio da animação. Mundo este onde tudo é possível, onde as leis dos homens é constantemente subvertida, onde os sonhos e as formas mais improváveis tornam-se possíveis.
Nesse mundo todo peculiar o mais interessante é que aquilo que se realiza quadro-a-quadro só poderá ser visto através de um dispositivo que potencializa o olhar do espectador, fazendo-o ver aquilo que a olho nu seria imperceptível. Os desenhos se formam e desaparecem, sendo recriados a cada instante. A maleabilidade do material e sua efemeridade associam-se em harmonia no filme de Meléndez. O uso de areia colorida, a suavidade no jogo de luz e sombra e as tonalidades conseguidas impressionam. Confira a animação "No corras tanto" abaixo e em seguida seu making of (que apesar de interessante não apresenta a transformação quadro-a-quadro de seus desnehos na areia):





MON CHINOIS, de Cédric Villain (França)
Ganhador do prêmio de melhor animação, júri popular Anima Mundi (RJ).
Este é um filme encantador que por sua simplicidade conquista o público. Fazendo uso de todos os clichês que o ocidente possui sobre os chineses, a forma adequa-se ao conteúdo. Através de uma animação limitada 2D realizada no computador, a comicidade ingênua é aspecto marcante. Passados como slides, os estereótipos dos chineses são apresentados com diferentes materiais interagindo com a animação, como por exemplo a mão do animador e até um limão. Este filme foi realizado em 2008, época das Olimpíadas de Beijing, como participante do 12º Défidéfous (http://www.fousdanim.org/defis/), um concurso francês de animação com temas determinados. Nessa edição “as sombras chinesas” eram o asunto a ser animado. MON CHINOIS foi inspirado em uma sátira aos chineses cantada por Eric Idle, do grupo inglês Monty Python, na década de 1970.
Do mesmo animador, o filme PORTRAITS RATÉS À SAINTE HÉLÈNE, utiliza a mesma técnica de MON CHINOIS, mas dessa vez o caráter didático e histórico da animação dão o tom.
Levanta-se a questão sobre a verdadeira imagem de Napoleão, que foi retratado de diferentes formas pelos artistas da época e que morreu antes do advento da fotografia. A animação é precisa e caracteriza-se pelo aspecto infográfico com que apresenta a informação. A comicidade também presente diverte e informa sobre os absurdos das situações humanas. Ambos os filmes estão disponíveis para visualização e download sob licença creative commons. Confira no site do animador essas animações entre outros trabalhos:

http://www.cedric-villain.info

ENGEL ZU FUß, de Jakob Schuh e Sachka Unseld (Alemanha)
Esta animação alemã encanta não só pelo tema como impressiona pelo uso da computação gráfica com características de stop-motion, ou seja, o volume e a textura dos bonecos parecem palpáveis. O design dos personagens e a direção de arte estão bem relacionados nessa história de um anjo feminino (mesmo que os anjos não tenham sexo) que caiu do céu porque suas asas são muito pequenas. Meio desastrada ela se mete em confusões ao tentar de todas as formas voltar para o Céu, mas descobrirá entre os homens que somente a verdadeira generosidade pode levá-la de volta. Infelizmente não há link disponível para esse filme.

LASKA, de Michał Socha (Polônia)
Neste filme polonês é a composição que se destaca. O uso criativo dos espaços utilizando apenas as cores vermelho, preto e branco surpreende ao criar perspectiva, volumes e sombras inusitadas. Tudo a serviço desse mundo estranho em que os seres e as formas possuem um comportamento que se assemelha ao dos humanos. Com personagens feitos de formas básicas e borrões com textura de tinta, essa animação realizada em computação gráfica 2D e 3D apresenta de forma estranha os rituais de encontro e acasalamento desses seres que representam o feminino e o masculino. Veja o site e confira seu trailer:

http://www.thechickfilm.com/en/


ARC, de Ferenc Cakó (Hungria)
Ao deixar de lado a técnica de animação em areia que o consagrou, o animador húngaro Ferenc Cakó faz uso da massinha para expressar questões mais profundas e intrigantes sobre a condição humana. Ao criar uma sociedade decadente em que a promessa de um belo rosto move seus inexpressivos habitantes sem face ele ironiza a eterna busca humana pela felicidade através da beleza. Após passar por burocráticos processos para conseguir o tão desejado rosto os habitantes sentem-se enganados chegando a depor violentamente a estrutura administrativa vigente. Chegam ao criar uma sociedade colaborativa e descobrem a alegria de ajudar o outro, mas até quando. Como toda animação do leste europeu as possibilidades de interpretação são diversas e questões ainda mais profundas podem ser levantadas. A massa de modelar que permite ser modelada por si mesma faz com que a escolha deste material seja imprecindível para a história a ser narrada. A mesma animação não teria a mesma força se fosse contada com areia. Mesmo que o filme não esteja disponível online confira o site desse importante animador:

http://www.cakostudio.hu/

A adequação do material a ser animado ao filme deve ser observada e, na verdade, esta é uma característica marcante dos filmes aqui apresentados. É como se a história não pudesse ser contada de outra maneira a não ser com a técnica escolhida. Essa união entre forma e narrativa pode garantir o sucesso do filme. Afinal, não é qualquer história que pode ser bem contada com qualquer técnica.

Observação sobre os três curtas brasileiros que vi: é impressionante como no Brasil ainda tenta-se compensar a falta de animação dos filmes com narração. É como se os animadores não acreditassem no poder narrativo da imagem que concebem e preferissem garantir a compreensão do público através das falas óbvias. O que há de errado em fazer o público pensar? Viva a tradição do leste europeu e seus filmes silenciosos.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Meu nome é Wells e eu estou aqui para recrutar vocês!

Meu nome é Wells e eu estou aqui para recrutar vocês, para fazermos, juntos, uma dieta à base de leite. Assim, nós seremos fortes o suficiente para mudar o mundo.

Desde a primeira notícia sobre a produção de Milk fiquei ansioso para ver o filme por duas razões: seria mais um longa-metragem de Gus Van Sant, um dos diretores que mais admiro na atualidade, e seria um filme sobre Harvey Milk, uma figura emblemática do movimento gay norte-americano.

Com os trailers vistos pela internet fiquei ainda mais ansioso, mas o filme estreou em Belo Horizonte na sexta-feira de carnaval e eu já havia comprado uma passagem para a minha pequena cidade natal, que não é São Francisco, mas é surpreendentemente gay friendly. Então, antes de ver o filme, assisti à merecida premiação de Sean Penn como melhor ator de 2008 segundo a Academia de Hollywood. E seu discurso me emocionou.

Na quarta-feira de cinzas, ao meio-dia, eu estava de volta a Belo Horizonte. Deixei minha mala em casa e fui tomar o meu copo de leite na primeira sessão do cinema Usina.

Se me perguntarem se vi o Gus Van Sant, direi que sua discrição me faz gostar ainda mais dele. Milk é um filme absolutamente bem feito, tudo nele é perfeito, mas não tem uma marca de diretor. Gus Van Sant entendeu o quão importante era a história que iria contar, o personagem que iria retratar, e abriu mão de fazer um exercício de estilo em prol de um mundo melhor. Sabemos que a arte engajada também pode ser genial na forma e Eisenstein é uma prova disso. Mas, talvez por humildade Gus Van Sant não tenha se arriscado. Talvez seja por lucidez, afinal, seu país (e o mundo) passa por um momento extremamente delicado e ele percebeu que um Harvey Milk em primeiro plano pode ser mais necessário que um diretor-estrela.


O "Milk" de Van Sant (ou seria mais adequado dizer o "Milk" de Dustin Lance Black ou ainda de Sean Penn?) é perfeito, pois é humano, às vezes negligente, às vezes oportunista, sempre vaidoso, mas tão corajoso, tão generoso, tão perspicaz que convenceu Hollywood e espero que tenha convencido você também. Porque os quatro, Gus Van Sant, Dustin Lance Black, Sean Penn e Harvey Milk, fizeram algo do que podem se orgulhar. E você?

Tomemos, juntos, esse copo de leite para termos força para mudar o mundo.



Em tempo, minha pequena e gay friendly cidade natal é Piumhi, quem sabe você possa encontrar um Scott Smith por lá? Como não há lá um metrô, ele pode estar por toda parte.

Revolutionary Road

Foi apenas um sonho (Revolutionary Road – EUA – 2008), de Sam Mendes.


Injustiças sempre acontecem no Oscar, mas o que mais me surpreende é que um filme bom como “Revolutionary Road” tenha sido tão negligenciado, não sendo valorizado nem pela crítica, nem pelo público. Na tentativa de entender o descaso encontrei o artigo de Willing Davidson Great Book, Bad Movie - How Hollywood ruins novels”. Não por acaso a foto que ilustrava o artigo era exatamente do filme “Revolutionary Road”.

Muitos acreditam na frase-feita de que “o livro SEMPRE é melhor do que o filme”. Eu mesma pensava assim, até que através dos argumentos de minha amiga Érika Savernini aprendi a perceber que mesmo que o filme seja baseado no livro eles são produtos diferentes (um literário e outro audiovisual) e por isso não podem ser comparados da mesma maneira. Sei que isso é difícil de se conseguir, especialmente quando se está muito envolvido com o livro, mas o distanciamento se faz necessário. Em seu artigo Davidson argumenta que o filme não sustenta o envolvimento que o autor cria entre o leitor e o livro, chegando a afirmar que uma grande obra literária foi mal adaptada, rechançando o filme de Sam Mendes. Não precisamos nos identificar com as discussões dos personagens em si, mas sim com o fato de que o sonho de viver intensamente a vida esvaiu-se. A partir daí perdeu-se a esperança e sem esperança não há vida.

A grande maioria no Brasil não teve acesso ao livro de Richard Yates, que provavelmente venderá mais exemplares graças ao filme e à polêmica citada no artigo de Davidson, portanto o primeiro contato com a história do casal Wheeler se deu através do filme. Ao ser analisado livre desse pré-conceito, o filme destaca-se como um dos melhores que já vi nos últimos tempos.

Em sua desiludida e terrível abordagem da sociedade norte-americana dos anos 1950 Sam Mendes cria uma obra-prima. Não romântico e meloso como muitos gostariam, mas cruel e verdadeiro como não suportamos encarar. Talvez por isso o filme incomodou mais do que agradou.

Aqueles que não sabem perceber a qualidade de um filme independentemente do fato de seu final ser feliz ou não estão perdendo a oportunidade de apreciar um bom cinema.

É preciso compreender que filmes, e a arte em geral, não devem ser apenas reflexos daquilo que gostamos e que nos faz sentir bem. O filme bom é aquele que mexe conosco, positiva ou negativamente, que de uma forma ou de outra nos faz pensar.

Quem nunca se sentiu amarrado pelas hipocrisias sociais que atire a primeira pedra. “Foi apenas um sonho”, título em português do filme, de certa forma entrega a história. Talvez esse nome tenha sido dado com intuito de preparar espectadores desavisados que vão ao cinema apenas para ver “Jack e Rose” juntos novamente. De qualquer forma a sutileza amarga do título original do filme “Revolutionary Road” não trás apenas o nome da rua do subúrbio em que moram os protagonistas. Ele traz a hipocrisia em si, ao chamar de revolucionária uma rua, e toda uma sociedade, que é exatamente o contrário.

Recentemente assisti a um documentário sobre os anos 1950 em que afirmava-se que nada realmente bom aconteceu nesse período nos Estados Unidos, mesmo que se tenha lembranças românticas sobre ele. A repressão era enorme e a necessidade de conter o comportamento das massas com filmes e propagandas que pregavam o American Way of Life escondiam o “buraco desesperançoso” em que essas pessoas viviam. Elas tentavam aparentar ser sempre felizes e se enquadrar nos padrões fantasiosos, mas inviáveis, vendidos pela mídia.

Daí vêm os filmes de Doris Day e Sandra Dee que ensinavam como ser uma boa dona-de-casa. A “revolução” do período em si foi marcada pelas invenções que facilitariam a vida da dona-de-casa, como a máquina de lavar. Toda repressão e falta de liberdade de expressão, principalmente das mulheres, colaborou para criar uma geração completamente desnorteada e sem senso da própria vida e dos próprios sentimentos.

No filme um jovem casal promissor, de idéias ousadas e sonhos a serem realizados, sem perceber, acaba caindo na armadilha da sociedade norte-americana: casar-se, ter filhos, trabalhar em um emprego que não se gosta e morar no subúrbio. Os padrões estabelecidos por seus pais acaba sendo repetido por eles. Acabam ficando amargos um com o outro e com a vida. Eternamente insatisfeitos, em busca de prazeres momentâneos que possam tampar, mesmo que temporariamente, o enorme “buraco desesperançoso” em que se encontram.

April e Frank Wheeler (interpretados por Kate Winslet e Leonardo DiCaprio) vêem a luz no fim do túnel e percebem os problemas e as consequências de sua vida vazia. A solução por eles encontrada é mudar para Paris. A cidade luz representa a oportunidade de um recomeço, livre das formas de conduta pasteurizadas típicos da sociedade norte-americana. No fundo, como diz a personagem de Kate Winslet não precisa ser Paris, pode ser qualquer outro lugar. O importante é fugir da armadilha e começar a viver.

Todos parecem sedados e incapazes de mudar o rumo de sua própria vida e quando o jovem casal Wheeler decide sair desse ciclo vicioso, a estrutura é abalada.

A figura mais interessante e autêntica do filme é John Givings, PhD em Matemática, que depois de vários tratamentos de choque passa sua vida entre internações psquiátricas e a casa da mãe Helen Givings, interpretada por uma surpreendente Kathy Bates. John, assim como os Wheeler, também viu a luz no fim do túnel, mas ele não conseguiu escapar. De qualquer forma, o estigma de “doente mental” lhe dá a liberdade de falar as mais puras verdades. Ele é a figura mais íntegra do filme e possui um “terceiro olho” que lhe permite ver a covardia e a verdade naqueles que o cercam. Ele rechaça a covardia e celebra a verdade, acreditando que esse casal tem a oportunidade de fugir da hipocrisia reinante.

As brilhantes atuações de Winslet e DiCaprio permitem que o espectador veja ainda uma chama de vida em seus personagens e essa chama vai apagando-se a medida que o sonho de uma nova vida vai se distanciando. Frank acaba conseguindo se readaptar, por medo de conhecer a si mesmo. April não.


O que fica: uma célebre frase de Goethe “Se você pensa que pode, ou sonha que pode, comece. Ousadia tem poder, genialidade e mágica. Ouse fazer e o poder lhe será dado”.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Mobile Art - New York

Quando se está viajando acasos felizes sempre acontecem, pelo menos comigo é assim. Ao passear pelo Central Park em outubro deste ano eu e meu marido encontramos no meio do parque uma enorme estrutura branca que se assemelhava a um casulo. Curiosos fomos conferir. Descobrimos que era o container de Arte Contemporânea da Chanel concebido pela Arquiteta Zaha Hadid com a exposição Mobile Art. (http://www.chanel-mobileart.com)
Vinte artistas contemporâneos exibiam trabalhos inspirados nos elementos que dão à emblemática bolsa Chanel sua identidade. A exposição era gratuita, mas o tempo de espera na fila era enorme e acabamos optando, decepcionados, por não esperar.
Ao começar a sair do local fomos abordados por uma casal de coreanos que perguntou se gostaríamos de ver a exposição. Dissemos que sim, mas que estávamos desistindo devido ao tempo de espera na fila. Ele nos informou que tinha dois ingressos sobrando e gostaria de dá-los para nós, pois ele os havia reservado com mais de um mês de antecedência e o casal de amigos que eles aguardavam não pôde ir. Ele nos explicou ainda que era uma oportunidade única e por isso não queria perder os ingressos que tinha, mas gostaria de compartilhá-los com outras pessoas. Convencidos e satisfeitos aceitamos a bondade de estranhos e entramos imediatamente no “casulo”.
Ao entrar todos os seus pertences (bolsas, casacos, sacolas) eram deixados na entrada. Uma moça veio nos explicar que a exposição era uma experiência individual e que nos seriam dados fones de ouvido e através deles deveríamos seguir as orientações da voz narradora. Assim, coloquei o fone de ouvido e despedi-me de meu marido.
Era estranho abrir mão de referenciais de segurança para viver uma experiência desconhecida. A falta de referência do conteúdo da exposição nos permitiu fruir o momento com um novo olhar, sem julgamentos.
Uma música relaxante começou a tocar, depois de algum tempo uma confortável voz feminina se apresentou pedindo que eu me levantasse e virasse à esquerda. Depois de passar por um corredor escuro saí numa sala toda branca com duas cadeiras e pequenos ladrilhos no chão que formavam um campo florido, um enorme lustre transparente iluminava opacamente o ambiente. A voz pedia que curtisse o momento e apreciasse as obras, dando algumas informações técnicas de sua produção. A música ajudava a entrar no clima.
Em seguida a voz pediu que subisse as escadas e olhasse através de um fosso. Projeções digitais de metamorfose inspiravam reflexões sobre a passagem da vida. O tempo que se ficava em cada obra era definido pela voz, o que permitia perceber a obra mais profundamente. De lá fui instruída a descer as escadas e passar por cortinas pesadas que davam acesso a um quarto escuro. Apoiei-me num pequeno banco e fiquei apreciando a passagem de tempo e uma rua residencial. As pessoas passavam na rua, outras eram vistas através da janela de suas casas, ocupadas em seus afazeres. O dia nascia, chegava a tarde e caía a noite. O mais interessante era que a ação era vista pelo reflexo da projeção em poças d’água. À frente havia uma enorme parede escura que não tocava o chão e por isso nos permitia ver pelas poças a simplicidade e genialidade da obra.
Ao sair dessa sala avistei várias caixas de papelão expostas a uma altura que não me permitia ver seu interior. Ao aproximar a voz pede que olhemos dentro de cada caixa. A surpresa foi encontrar dentro da caixa duas pequenas mulheres, uma gordinha e outra magrinha, ambas nuas, brigando por uma bolsa chanel. As mulheres eram de verdade e foram filmadas de cima, no exato ângulo de quem observa o interior da caixa. Outras pequenas cenas pitorescas com a mesma mulher gordinha e nua ilustrava as outras caixas.
Várias salas e obras passaram e a exposição terminou, surpreendentemente em uma sala toda futurística, como um ambiente espacial saído do filme “2001, uma odisséia no espaço” de Kubrick. Uma enorme bolsa chanel aberta exibia em seu interior imagens de ação. A voz dizia em meu ouvido: “Esvazie sua bolsa”.
Ao passar pela bolsa, ainda no mesmo ambiente futurista, uma enorme árvore (de verdade) se apresentava aos nossos olhos. A voz pedia que pegássemos papel e lápis ali disponíveis para escrever um desejo, amarrando-o em seguida em um dos galhos da árvore.
A visita terminava ali.
Realmente foi uma experiência única vivenciar a Mobile Art. Tenho pena de não ter conseguido registrar todas as fantásticas falas da voz anfitriã, mas talvez o importante seja realmente a emoção da lembrança e não os detalhes em si.
Ao retornar pesquisei sobre a exposição e descobri o nome das obras e artistas que me proporcionaram essa agradável experiência. De todas elas gostaria de compartilhar com vocês o que descobri sobre a árvore, na verdade a “Árvore dos desejos” que descobri ser obra da Yoko Ono que em uma entrevista à Folha de São Paulo revela a origem da idéia:
“A idéia deriva de uma tradição japonesa que conheci na infância. Você tinha de escrever em um papel desejos relacionados apenas ao amor, à saúde e ao dinheiro e pendurá-los em uma árvore, que cresceria e levaria seu desejo para o alto. Mas acho que o desejo é livre e nas minhas árvores cada um tem a livre escolha do desejo.
Em Reykjavík, na Islândia, existe a Imagine Peace Tower, que inaugurei em 9 de outubro (aniversário de Lennon) do ano passado (2007). Então, todos os desejos eu mando para lá. Já encaminhei mais de 700 mil pedidos. Para mandar direto, coloque seu desejo em um envelope e mande para Imagine Peace Tower - P.O. Box 1009, 121 Reykjavík, Iceland.” (http://imaginepeace.com/news/)
Aqui fica o meu desejo a todos de um ano novo muito especial e mesmo se você não pôde conferir a exposição Mobile Art (que agora está em Londres e seguirá para Paris em breve) mande seu desejo diretamente para a Imagine Peace Tower. Quer goste da Yoko ou não a idéia é simbólica e bela, pois o que realmente importa agora e sempre é a Paz entre os homens. Por isso esvazie sua bolsa, livre-se dos preconceitos e curta cada momento da melhor forma que puder.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Simplesmente Amor

Nesta semana, alguns canais a cabo andam reprisando o filme Simplesmente Amor (Actually Love – Inglaterra – 2003), dirigido e roteirizado por Richard Curtis. Este filme passou desapercebido pelos cinemas. Eu só assisti a ele depois da Christine Veras me garantir que era uma ótima surpresa. De fato, é um filme que provavelmente nunca será listado entre os 100 ou sequer os 1000 maiores de todos os tempos, mas entrou logo para a minha lista de filmes a serem assistidos sempre que preciso de distração garantida (aqueles que não exigem muito do intelecto, mas não ofendem à inteligência, e ainda nos tocam de alguma forma).

Simplesmente Amor até adota uma fórmula que já vem se desgastando e se esvaziando: a de múltiplas histórias sendo contadas paralelamente, com os personagens interrelacionando-se ao longo da trama. A despeito de esta fórmula não parecer apresentar quaisquer novidades, adéqua-se perfeitamente a este filme. As diversas histórias apresentam várias formas de amor ao mesmo tempo que diferentes tons narrativos (nuances do amor dramático e do cômico).

A história de Billy Mack (Bill Nighy) é uma das grandes fontes de humor do filme e permeia toda narrativa. Uma das suas cenas mais marcantes certamente é de quando vai a um programa para adolescentes e termina dando um conselho para os “meninos e meninas” em casa: Não comprem drogas. Tornem-se um astro do rock, que te dão de graça. Também cômica é a improvável história de Colin Frissell (Kris Marshall) que vai à América atrás de garotas mais bonitas e liberadas que se interessassem por ele - e consegue isso em Wisconsin. Hugh Grant, como o primeiro-ministro inglês, vive uma comédia romântica ao se apaixonar por uma de suas funcionárias - depois de um típico breve momento de separação causada por um mal-entendido, acabam se entendendo numa cena em que parte das histórias se encontra.

Histórias mais dramáticas vivem Sarah (Laura Linney) e Karen (Emma Thompson). Sarah chega à beira de realizar seu sonho de ficar com Karl (Rodrigo Santoro) por quem é apaixonada, mas ao final temos dúvida se algum dia conseguirá dispor livremente da própria vida. Karen descobre a traição do marido, Harry (Alan Rickman), e vê seu casamento ameaçado para sempre (mesmo ficando juntos, percebe-se que algo se quebrou entre eles). Jamie Bennett (Colin Firth), por outro lado, começa numa história de traição (a namorada está tendo um caso com o irmão de Jamie) e termina numa comédia romântica (uma relação terna e empolgante com Aurelia – interpretada pela atriz portuguesa Lúcia Moniz -, uma história com direito a separação temporária, obstáculo da língua e superação).

Uma das minhas histórias favoritas é do amor impossível de Mark (Andrew Lincoln) por Juliet (Keira Knightley), mulher de seu melhor amigo, Peter (Chiwetel Ejiofor). A cena em que todos descobrimos que ele é apaixonado por ela está entre minhas favoritas. Assim como a do casamento e da declaração na noite de Natal.

Separei, dentre o que se acha no YouTube, quatro das minhas cenas favoritas que, não coincidentemente, têm trilhas musicais maravilhosas.

Peter e Juliet Karen e Harry Mark e Juliet Sarah e Karl

Sim, há muitas outras histórias em Simplesmente Amor, sobre as quais precisaria de muito mais espaço para falar. Aquela fórmula saturada do filme episódico faz todo sentido aqui: compõem os pequenos gestos, diálogos, tons e formas do amor.

Além disso, toda história se passa na época do Natal. Feliz Natal a todos!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

COMO TRANSFORMAR ELI WALLACH NA PERSONIFICAÇÃO DO FEIO

Ele poderia ser seu vizinho, o padeiro da esquina, seu tio, seu cunhado, até mesmo seu pai. No entanto, sem cicatrizes ou deformações aparentes, ele é o FEIO e Sergio Leone nos convence disso. É magistral a maneira como esse personagem é apresentado em sua primeira cena: como um monstro que se esconde em uma caverna e dela sai somente depois de ter “assustado” aqueles que vieram caçá-lo. Diferentemente, o MAU surge através de uma aproximação lenta, sem dissimulação. E o BOM, como um anjo da guarda, quase etéreo, aparece para proteger o “pobre FEIO”, mas também para fazer-lhe um contraponto, pois o BOM é Clint Eastwood, o BELO, que se fosse seu vizinho, o padeiro da esquina, seu cunhado ou o seu pai, você estaria perdidamente apaixonado(a). Assim, as crueldades cometidas pelo FEIO contra o BOM reforçam seus “títulos” já que elas podem ser claramente entendidas como inveja.

É evidente que alguns ângulos da câmera não favorecem Eli Wallach que colabora com algumas caretas na composição do seu personagem, o elemento feio na fotogenia geral. Aqui, o FEIO é MAU, como na cantiga popular levemente alterada “Boi, boi, boi... boi da cara feia pega este menino que tem medo de careta.”

Entretanto, sem muitos artifícios, é mesmo a comparação com o BELO que nos convence da “feiúra” de Tuco (Eli Wallach). Uma estratégia eficaz e recorrente no cinema. François Ozon se vale dela no filme 8 Mulheres, evidenciando-a através de um diálogo entre Catherine Deneuve e Isabelle Huppert no qual Gaby (Catherine Deneuve) diz à sua irmã Ausgustine (Isabelle Huppert): “Não tenho culpa se sou bela e rica enquanto você é feia e pobre.”Ora, se comparado à Clint Eastwood, Eli Wallach é o FEIO, por outro lado não seria difícil inverter sua posição se o comparamos com tantos monstrengos que já vimos nas telas.

A feiúra é, então, relativa e pode ser apenas uma máscara de proteção, como uma carranca na proa de um barco para afastar os maus espíritos. Diversas culturas praticam tal expediente. Mais uma vez, é a bela Catherine Deneuve que me vem à memória, quando no filme Indochina, interpretando Eliane, ela saúda o seu neto recém-nascido dizendo: “Como ele é feio!”, e acrescenta bem baixinho “É para protegê-lo dos maus espíritos, que viriam buscá-lo se descobrissem o quanto ele é belo”.

Então, chamem-me de O FEIO que também estarei protegido dos maus espíritos e quem sabe atrairei um anjo da guarda como Clint Eastwood, O BELO.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Angel Eyes, O Mau


Às vezes, nos deparamos com títulos e nomes de personagens que são uma síntese perfeita de seu espírito - só por isso mereciam um prêmio. Em O bom, o mau e o feio (Il, Buono, Il Brutto, Il Cattivo - Itália - 1966), chamado no Brasil Três Homens em Conflito, Lee Van Cleef é Angel Eyes, O Mau.

Nos extras do DVD duplo do filme restaurado, ficamos sabendo que os olhos de Lee Van Cleef, penetrantes e absolutamente inconfundíveis, pesaram sobremaneira na escolha do diretor Sérgio Leone. Um diretor cujo estilo dizem ser operístico, marcado por alternâncias radicais de um grande plano geral diretamente para um close up, pela dança de olhares sem fala. Mesmo na tela da televisão, o olhar de Lee Van Cleef é perfurante, atravessa a tela (palavras de Leone); fico imaginando o impacto no cinema, na sala escura, na tela grande...

Obviamente não é só o formato dos olhos e do nariz, Lee Van Cleef amedronta e consegue ser mau só de olhar para dentro ou fora da tela. Ao mesmo tempo, Angel Eyes move-se e age de maneira tão elegante e segura que não dá para deixar de admirá-lo, de sentir fascínio pelo Mal que tem uma lógica, que é elegante e inteligente... tudo que esperamos que o vilão não seja.

Este Mal Fascinante teve sua defesa mais inusitada nos anos 1950. A Disney produziu um programa de TV chamado Disneylândia, exibido nos Estados Unidos de 27 de outubro de 1954 a 04 de fevereiro de 1990. O programa era montado a partir da edição dos filmes produzidos pelo estúdio - que se notabilizara há muito pelo "bom-mocismo", pela infantilização da animação e edulcoração dos contos de fadas. Sem dúvida, meu episódio favorito é o nº 20, da segunda temporada, que foi ao ar no dia 15 de fevereiro de 1956, "Our unsung villains". Os vilões são defendidos ardorosamente pelo espelho da madrasta da Branca de Neve, com o argumento genial de que os vilões é que deveriam ser cultuados, pois eles são quem dão, literalmente, o sangue para entreter o público, para fazer mocinhos e mocinhas parecerem bem. Pura injustiça, pois estes, sim, são de uma crueldade atroz (basta um retrospecto das mortes e punições reservadas aos vilões pelas mãos dos mocinhos).

Logo na seqüência de apresentação de Angel Eyes, descobrimos a lógica d'O Mau. Ele está cumprindo um contrato: Baker quer descobrir o nome que Jackson está usando (homem que escondera o tesouro que desperta a cobiça de Blondie, Angel Eyes e Tuco - O Bom, O Mau e O Feio). Para isto, Angel Eyes confronta e mata um homem em sua mesa de almoço - não sem antes o homem tentar fazer uma contraproposta para que Angel Eyes matasse Baker. No entanto, Angel Eyes explica que ele sempre cumpre seus contratos.

Quando completa o serviço, ele dá ao moribundo Baker a informação, explica que matou o "informante", mas acrescenta que há um problema, ele fora pago para matar Baker: "O chato é que quando me pagam, sempre cumpro minha parte. Você sabe disso." Então, com justiça, ele mata Baker como matara o outro homem. O Mau é ético.

Nesta seqüência fica claro: este é o cara que deve ser temido, com sua frieza, determinação, habilidade e lógica inquebrantável. Para vencê-lo, Blondie e Tuco precisam se unir. Como a grande ameaça, Angel Eyes nem precisa aparecer muito durante a trama, quase toda centrada n'O Bom e O Feio. Para ser temido, a ele, basta um olhar.