sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Revolutionary Road

Foi apenas um sonho (Revolutionary Road – EUA – 2008), de Sam Mendes.


Injustiças sempre acontecem no Oscar, mas o que mais me surpreende é que um filme bom como “Revolutionary Road” tenha sido tão negligenciado, não sendo valorizado nem pela crítica, nem pelo público. Na tentativa de entender o descaso encontrei o artigo de Willing Davidson Great Book, Bad Movie - How Hollywood ruins novels”. Não por acaso a foto que ilustrava o artigo era exatamente do filme “Revolutionary Road”.

Muitos acreditam na frase-feita de que “o livro SEMPRE é melhor do que o filme”. Eu mesma pensava assim, até que através dos argumentos de minha amiga Érika Savernini aprendi a perceber que mesmo que o filme seja baseado no livro eles são produtos diferentes (um literário e outro audiovisual) e por isso não podem ser comparados da mesma maneira. Sei que isso é difícil de se conseguir, especialmente quando se está muito envolvido com o livro, mas o distanciamento se faz necessário. Em seu artigo Davidson argumenta que o filme não sustenta o envolvimento que o autor cria entre o leitor e o livro, chegando a afirmar que uma grande obra literária foi mal adaptada, rechançando o filme de Sam Mendes. Não precisamos nos identificar com as discussões dos personagens em si, mas sim com o fato de que o sonho de viver intensamente a vida esvaiu-se. A partir daí perdeu-se a esperança e sem esperança não há vida.

A grande maioria no Brasil não teve acesso ao livro de Richard Yates, que provavelmente venderá mais exemplares graças ao filme e à polêmica citada no artigo de Davidson, portanto o primeiro contato com a história do casal Wheeler se deu através do filme. Ao ser analisado livre desse pré-conceito, o filme destaca-se como um dos melhores que já vi nos últimos tempos.

Em sua desiludida e terrível abordagem da sociedade norte-americana dos anos 1950 Sam Mendes cria uma obra-prima. Não romântico e meloso como muitos gostariam, mas cruel e verdadeiro como não suportamos encarar. Talvez por isso o filme incomodou mais do que agradou.

Aqueles que não sabem perceber a qualidade de um filme independentemente do fato de seu final ser feliz ou não estão perdendo a oportunidade de apreciar um bom cinema.

É preciso compreender que filmes, e a arte em geral, não devem ser apenas reflexos daquilo que gostamos e que nos faz sentir bem. O filme bom é aquele que mexe conosco, positiva ou negativamente, que de uma forma ou de outra nos faz pensar.

Quem nunca se sentiu amarrado pelas hipocrisias sociais que atire a primeira pedra. “Foi apenas um sonho”, título em português do filme, de certa forma entrega a história. Talvez esse nome tenha sido dado com intuito de preparar espectadores desavisados que vão ao cinema apenas para ver “Jack e Rose” juntos novamente. De qualquer forma a sutileza amarga do título original do filme “Revolutionary Road” não trás apenas o nome da rua do subúrbio em que moram os protagonistas. Ele traz a hipocrisia em si, ao chamar de revolucionária uma rua, e toda uma sociedade, que é exatamente o contrário.

Recentemente assisti a um documentário sobre os anos 1950 em que afirmava-se que nada realmente bom aconteceu nesse período nos Estados Unidos, mesmo que se tenha lembranças românticas sobre ele. A repressão era enorme e a necessidade de conter o comportamento das massas com filmes e propagandas que pregavam o American Way of Life escondiam o “buraco desesperançoso” em que essas pessoas viviam. Elas tentavam aparentar ser sempre felizes e se enquadrar nos padrões fantasiosos, mas inviáveis, vendidos pela mídia.

Daí vêm os filmes de Doris Day e Sandra Dee que ensinavam como ser uma boa dona-de-casa. A “revolução” do período em si foi marcada pelas invenções que facilitariam a vida da dona-de-casa, como a máquina de lavar. Toda repressão e falta de liberdade de expressão, principalmente das mulheres, colaborou para criar uma geração completamente desnorteada e sem senso da própria vida e dos próprios sentimentos.

No filme um jovem casal promissor, de idéias ousadas e sonhos a serem realizados, sem perceber, acaba caindo na armadilha da sociedade norte-americana: casar-se, ter filhos, trabalhar em um emprego que não se gosta e morar no subúrbio. Os padrões estabelecidos por seus pais acaba sendo repetido por eles. Acabam ficando amargos um com o outro e com a vida. Eternamente insatisfeitos, em busca de prazeres momentâneos que possam tampar, mesmo que temporariamente, o enorme “buraco desesperançoso” em que se encontram.

April e Frank Wheeler (interpretados por Kate Winslet e Leonardo DiCaprio) vêem a luz no fim do túnel e percebem os problemas e as consequências de sua vida vazia. A solução por eles encontrada é mudar para Paris. A cidade luz representa a oportunidade de um recomeço, livre das formas de conduta pasteurizadas típicos da sociedade norte-americana. No fundo, como diz a personagem de Kate Winslet não precisa ser Paris, pode ser qualquer outro lugar. O importante é fugir da armadilha e começar a viver.

Todos parecem sedados e incapazes de mudar o rumo de sua própria vida e quando o jovem casal Wheeler decide sair desse ciclo vicioso, a estrutura é abalada.

A figura mais interessante e autêntica do filme é John Givings, PhD em Matemática, que depois de vários tratamentos de choque passa sua vida entre internações psquiátricas e a casa da mãe Helen Givings, interpretada por uma surpreendente Kathy Bates. John, assim como os Wheeler, também viu a luz no fim do túnel, mas ele não conseguiu escapar. De qualquer forma, o estigma de “doente mental” lhe dá a liberdade de falar as mais puras verdades. Ele é a figura mais íntegra do filme e possui um “terceiro olho” que lhe permite ver a covardia e a verdade naqueles que o cercam. Ele rechaça a covardia e celebra a verdade, acreditando que esse casal tem a oportunidade de fugir da hipocrisia reinante.

As brilhantes atuações de Winslet e DiCaprio permitem que o espectador veja ainda uma chama de vida em seus personagens e essa chama vai apagando-se a medida que o sonho de uma nova vida vai se distanciando. Frank acaba conseguindo se readaptar, por medo de conhecer a si mesmo. April não.


O que fica: uma célebre frase de Goethe “Se você pensa que pode, ou sonha que pode, comece. Ousadia tem poder, genialidade e mágica. Ouse fazer e o poder lhe será dado”.

Um comentário:

Ana Clara disse...

Otima critica, Chris! Acrescentou-me alguns detalhes que nao sabia. Gostei muito do filme. Tambem acho que foi injustiçado na premiação. Principalmente porque trata verdadeiramente de questoes sociais que o grande premiado (Slumdog millioanaire) só finge que toca. (ok, você gostou do filme entao: só toca superficialmente. Talvez seja por isso que se deu bem no Oscar. A academia adora passar por engajada, mas nem tanto...