terça-feira, 21 de julho de 2009

Anima Mundi 2009 – Curtas Experimentais

Em sua 16º edição o Festival Anima Mundi surpreendeu pelo experimentalismo dos curtas em tempos de massificação do digital. Nesses meus 9 anos de Festival destaco nessa edição de 2009 três momentos que dividirei em postagens separadas: curtas experimentais, Michel Ocelot e o longa-metragem “Sita sings the blues”.
Nesses anos que acompanho e participo do Anima Mundi no Rio de Janeiro (em 2004 tive 2 filmes no festival: “Tequila” no Anima Web e “Navio Negreiro” no Animação em Curso) comecei a perceber que o digital avançava com tal força que parecia que as pessoas deixaram de refletir sobre as animações que realizavam e criavam efeitos especiais chamando-os de filmes.
Foi uma grata surpresa perceber que na edição 2009 a maioria dos filmes, mesmo que feitos em computação gráfica, apresentavam uma visão de mundo diferente e procuravam utilizar o digital de uma forma mais experimental e até ousada. Mesmo que o fechamento da história, um roteiro bem amarrado, em alguns casos ainda deixem a desejar.
Em praticamente 2 dias consegui ver 48 curtas e 1 longa. Vários filmes destacaram-se e me surpreenderam durante o Festival, mas por diferentes motivos. Destaco aqui aqueles cujo experimentalismo me chamaram mais a atenção:

MUTO, de Blu (Itália)
Ganhador do prêmio de melhor animação, júri profissional Anima Mundi (RJ).
Muto é uma animação realizada nos muros das cidades de Buenos Aires e de Baden. Através de grafites registrados quadro-a-quadro, as estranhas formas realizadas pelo artista Blu ganham vida. O tempo muda, o sol muda e com ele a luz, pessoas passam como se nada estivesse acontecendo. Somente quando as imagens produzidas são editadas é que a animação pode acontecer, como se estivesse em um mundo paralelo à nossa realidade. Na cegueira do cotidiano Blu estaria apenas realizando mais um grafite, mas através do “olho mágico” da câmera sua arte se faz. O tremor da câmera, a mudança da luz e outros inconvenientes perdem sua força para a animação. Essa relação entre a concretude do muro, estrutura estanque, e o inusitado movimento dos desenhos resgatam uma magia quase perdida no universo da animação. A magia de “dar vida” ao inanimado, como se fosse possível ver a alma das coisas. Por mais bizarros que os desenhos sejam, o encanto da forma e da técnica superam qualquer expectativa. Blu chega a utilizar o chão além da parede, rompendo até mesmo com os limites convencionais que do grafite. É bom lembrar que animações assim dão muito trabalho para serem realizadas, mas seu resultado continua insuperável.
Para complementar Muto é lançado na íntegra em licença creative commons, ou seja, todos podem baixá-lo, exibi-lo e copiá-lo desde que seja para finalidades não comerciais. Confira abaixo essa impressionante animação e visite o site de Blu para conhecer mais sobre seu trabalho.

http://www.blublu.org/sito/video/muto.htm

NO CORRAS TANTO, de César Díaz Meléndez (Espanha)
A beleza da técnica de animação em areia consagrada pelo animador húngaro Férenc Cakó ganha novo fôlego no impressionante trabalho de César Díaz Meléndez. Com uma música caliente as formas vão se dissolvendo e recriando-se na areia. A interação com a música impressiona pelo timing preciso e os desenhos elaborados que se movem e se fundem ao ritmo da alegre música.
A utilização do espaço na animação é algo que sempre me impressionou, especialmente em processos mais artesanais e esse é um ponto marcante na animação “No corras tanto”. Transbordar os limites, recriar o espaço e com ele abrir as portas para um mundo próprio da animação. Mundo este onde tudo é possível, onde as leis dos homens é constantemente subvertida, onde os sonhos e as formas mais improváveis tornam-se possíveis.
Nesse mundo todo peculiar o mais interessante é que aquilo que se realiza quadro-a-quadro só poderá ser visto através de um dispositivo que potencializa o olhar do espectador, fazendo-o ver aquilo que a olho nu seria imperceptível. Os desenhos se formam e desaparecem, sendo recriados a cada instante. A maleabilidade do material e sua efemeridade associam-se em harmonia no filme de Meléndez. O uso de areia colorida, a suavidade no jogo de luz e sombra e as tonalidades conseguidas impressionam. Confira a animação "No corras tanto" abaixo e em seguida seu making of (que apesar de interessante não apresenta a transformação quadro-a-quadro de seus desnehos na areia):





MON CHINOIS, de Cédric Villain (França)
Ganhador do prêmio de melhor animação, júri popular Anima Mundi (RJ).
Este é um filme encantador que por sua simplicidade conquista o público. Fazendo uso de todos os clichês que o ocidente possui sobre os chineses, a forma adequa-se ao conteúdo. Através de uma animação limitada 2D realizada no computador, a comicidade ingênua é aspecto marcante. Passados como slides, os estereótipos dos chineses são apresentados com diferentes materiais interagindo com a animação, como por exemplo a mão do animador e até um limão. Este filme foi realizado em 2008, época das Olimpíadas de Beijing, como participante do 12º Défidéfous (http://www.fousdanim.org/defis/), um concurso francês de animação com temas determinados. Nessa edição “as sombras chinesas” eram o asunto a ser animado. MON CHINOIS foi inspirado em uma sátira aos chineses cantada por Eric Idle, do grupo inglês Monty Python, na década de 1970.
Do mesmo animador, o filme PORTRAITS RATÉS À SAINTE HÉLÈNE, utiliza a mesma técnica de MON CHINOIS, mas dessa vez o caráter didático e histórico da animação dão o tom.
Levanta-se a questão sobre a verdadeira imagem de Napoleão, que foi retratado de diferentes formas pelos artistas da época e que morreu antes do advento da fotografia. A animação é precisa e caracteriza-se pelo aspecto infográfico com que apresenta a informação. A comicidade também presente diverte e informa sobre os absurdos das situações humanas. Ambos os filmes estão disponíveis para visualização e download sob licença creative commons. Confira no site do animador essas animações entre outros trabalhos:

http://www.cedric-villain.info

ENGEL ZU FUß, de Jakob Schuh e Sachka Unseld (Alemanha)
Esta animação alemã encanta não só pelo tema como impressiona pelo uso da computação gráfica com características de stop-motion, ou seja, o volume e a textura dos bonecos parecem palpáveis. O design dos personagens e a direção de arte estão bem relacionados nessa história de um anjo feminino (mesmo que os anjos não tenham sexo) que caiu do céu porque suas asas são muito pequenas. Meio desastrada ela se mete em confusões ao tentar de todas as formas voltar para o Céu, mas descobrirá entre os homens que somente a verdadeira generosidade pode levá-la de volta. Infelizmente não há link disponível para esse filme.

LASKA, de Michał Socha (Polônia)
Neste filme polonês é a composição que se destaca. O uso criativo dos espaços utilizando apenas as cores vermelho, preto e branco surpreende ao criar perspectiva, volumes e sombras inusitadas. Tudo a serviço desse mundo estranho em que os seres e as formas possuem um comportamento que se assemelha ao dos humanos. Com personagens feitos de formas básicas e borrões com textura de tinta, essa animação realizada em computação gráfica 2D e 3D apresenta de forma estranha os rituais de encontro e acasalamento desses seres que representam o feminino e o masculino. Veja o site e confira seu trailer:

http://www.thechickfilm.com/en/


ARC, de Ferenc Cakó (Hungria)
Ao deixar de lado a técnica de animação em areia que o consagrou, o animador húngaro Ferenc Cakó faz uso da massinha para expressar questões mais profundas e intrigantes sobre a condição humana. Ao criar uma sociedade decadente em que a promessa de um belo rosto move seus inexpressivos habitantes sem face ele ironiza a eterna busca humana pela felicidade através da beleza. Após passar por burocráticos processos para conseguir o tão desejado rosto os habitantes sentem-se enganados chegando a depor violentamente a estrutura administrativa vigente. Chegam ao criar uma sociedade colaborativa e descobrem a alegria de ajudar o outro, mas até quando. Como toda animação do leste europeu as possibilidades de interpretação são diversas e questões ainda mais profundas podem ser levantadas. A massa de modelar que permite ser modelada por si mesma faz com que a escolha deste material seja imprecindível para a história a ser narrada. A mesma animação não teria a mesma força se fosse contada com areia. Mesmo que o filme não esteja disponível online confira o site desse importante animador:

http://www.cakostudio.hu/

A adequação do material a ser animado ao filme deve ser observada e, na verdade, esta é uma característica marcante dos filmes aqui apresentados. É como se a história não pudesse ser contada de outra maneira a não ser com a técnica escolhida. Essa união entre forma e narrativa pode garantir o sucesso do filme. Afinal, não é qualquer história que pode ser bem contada com qualquer técnica.

Observação sobre os três curtas brasileiros que vi: é impressionante como no Brasil ainda tenta-se compensar a falta de animação dos filmes com narração. É como se os animadores não acreditassem no poder narrativo da imagem que concebem e preferissem garantir a compreensão do público através das falas óbvias. O que há de errado em fazer o público pensar? Viva a tradição do leste europeu e seus filmes silenciosos.

Um comentário:

abordodomundo disse...

Muito legal seu texto, Chris.
gostei das animações. A de areia achei incrível. No making-of deu pra perceber o tempo que o cara demorou para fazer, só pelo crescimento da barba dele. rs...
A do Mutu, como vc acha q foi feita? Os desenhos relamente no muro e chao ou foram insertados depois, no pc???
Nao consegui ver a do Napoleon e tenho interesse pois trabalhei na Corsega! Bua...